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Às vezes tenho a sensação

de que a vida é uma eterna sala de espera. De que, inevitavelmente, estou à espera de algo, mas em vez de esperar parada como nos consultórios médicos, espero em movimento. Como se tudo fosse um ensaio. Um ensaio para a “grande estreia” que eu não sei quando é, mas que sinto ser sempre quase já, ou daí a nada, tipo “next in line”. Mas nunca chega a ser, sou a próxima na fila mas fico sempre lá. Então, ensaio um pouco mais.

Os jovens olham para a frente, para o futuro.

Os velhos olham para trás em retrospetiva, pelo espelho retrovisor, o único que fica. Tantas vezes dou por mim a projetar-me nesse futuro em que só vou poder olhar para trás. É um processo que me ajuda a estar aqui e agora. No presente.

Imagino-me lá à frente, sem poder voltar para trás e sem poder olhar para a frente, no final da estrada. Imagino-me a sentir que dava tudo para poder voltar a ter uma vista dianteira, e como que me concedo essa coisa impossível, o voltar atrás no tempo.

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É um processo que me ajuda a consciencializar de que ainda tenho o privilégio de ter duas direções para onde olhar. Posteriormente tento não olhar para lado nenhum para poder estar de corpo e alma aqui e agora.

Quando vejo os programas de ciência, nos quais mostram a Terra de longe, as galáxias, o universo, nesse momento fica tudo claro. Não há tempo, no sentido do tempo como algo concreto. Como lugar. Há somente espaço. E transformação das coisas nesse mesmo espaço. Não se avança nem para a frente, nem para trás. Está-se no mesmo sítio. No entanto, as nossas mentes muitas vezes habitam esses espaços irreais de tempo como se fossem concretos: o futuro e o passado.

É tão difícil sermos o ilusionista e o truque de magia ao mesmo tempo.

Estamos sempre à espera de ver o coelho sair da cartola. Dizem que a vida deixa de ser surpreendente na velhice. Talvez seja por isso mesmo, apercebemo-nos de que não existe coelho, e talvez nem exista cartola. Que a magia é algo que a gente faz, todos os dias, se quisermos.

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Que temos capacidade de acreditar, mesmo sabendo que é um truque. Como no Cinema. Que fazemos realidades, que as construímos, porque isso faz parte da vida e que só se morre quando deixamos de acreditar, pois ao fazê-lo abandonamos esses mundos que criamos e fica o vazio.

Por isso vivemos ensaios sucessivos da própria vida, é a única forma de viver, acreditando. É a única coisa que nos distingue como homens diferentes dos demais animais, incluindo os coelhos.

Portugal, Porto, Bar Canelas de Coelho, 5 de Agosto de 2014

 

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