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Podemos estar acompanhados mas, estarmos sozinhos. Podemos viver com alguém mas, viver a sós. Em Beirute, 2013, decidi fazer algo que sempre julguei nunca ir fazer, uma tatuagem. Pessoalmente, tatuar algo em mim era uma ideia que não me atraía, a ideia de permanência, de ter algo para sempre em mim. Para sempre, isto é, até à minha morte física. Mas, nesse dia de Verão, acordei no meu hotel e tinha uma palavra tatuada na minha mente: “equilíbrio”. Para chegarmos a ele é preciso passarmos pelo desequilíbrio, mas tornava-se cada vez mais evidente que a solução para tudo na vida habitava nessa simples palavra.

Ao longo dos anos tenho conhecido e me envolvido com outros seres humanos e, através deles, aprendo as minhas maiores lições de vida, a todos sou grata. Cada pessoa com quem me cruzo é um professor, e um aluno ao mesmo tempo. Nesses encontros e desencontros, cheguei a três conclusões sobre nós, seres humanos, homens e mulheres.

A primeira é que a raça humana é complexa, ainda que a base seja simples. No fundo, não somos assim tão diferentes uns dos outros, queremos mais ou menos as mesmas coisas, amar e sermos amados e não sofrer, o que é paradoxal, pois a dor faz parte da vida, assim como a morte, ainda que o sofrimento seja opcional.

A segunda, as pessoas mais felizes que conheci eram as que monetariamente tinham menos. Eram mais criativas de forma geral nas soluções que arranjavam para os problemas, mais flexíveis, as que melhor se adaptavam a novas circunstâncias, eram mais espontâneas e as que sorriam e celebravam mais.

E a terceira é que, as pessoas com quem me envolvi que mais buscavam o equilíbrio e encarnar o lema “viver no presente” eram, ironicamente, as mais alienadas. Racionalizavam de tal forma o que isso quer dizer, que acabavam por não se entregar a 100% a cada situação da vida, se desapegando das coisas e das pessoas e assim tornando-se num clichê vivo do próprio conceito que pregavam: o clichê do desapego. É, portanto, sobre isto que quero falar nesta crónica de hoje, a ideia distorcida do desapego. É preciso desapegar do desapego.

Durante os meus vinte e poucos anos, li imenso sobre Budismo. Iniciei a prática de yoga e da meditação. Aprendi sobre o viver no aqui e no agora. Entendi que a mente é como um outro músculo no nosso corpo, ela pode e deve ser treinada e tem um poder inimaginável. Constatei que fazer isso não é algo fácil. Conclui que era fundamental continuar, nunca desistir.

Tudo o que seja dogmático e totalitário, sempre me causou uma reação de afastamento. Etiquetas, grupos, rótulos, clichês. Porque sempre acho que ninguém nem nada é detentor da verdade absoluta e que muitos dos dogmas, de alguma maneira, apontam para as mesmas verdades, expressando-as de formas diferentes. No final, a única verdade que faz sentido é a que fizer sentido para nós. Isso significa que adaptamos, filtramos, encaixamos as aprendizagens no nosso contexto e na nossa pessoa, da forma mais verdadeira e plausível possível. Se nos limitarmos a copiar a verdade de outrem, tornamo-nos num clichê dela, numa imagem já formada, estereotipada. Perde-se a autenticidade, a individualidade. Sim, fazemos parte dum todo, duma comunidade, dum planeta. Mas somos também seres individuais, com caminhos individuais, somos organismos com instruções próprias.

O segredo está em atendermos somente a essa única verdade que é a nossa e entendermos que a verdade do outro pode ser diferente da nossa. Há tantos livros, tantas filosofias, que ensinam o amor universal, a lei do desapego. Aprendi tanto com elas. No entanto, constatei também que no processo de encontrar esse tal equilíbrio, são várias as pessoas que tendem a mal interpretar os conceitos e a ir para o extremo oposto. Confundem apego com entrega, desapego com alienação, e entrega com dependência. Os extremos sempre me atraíram, pela sua capacidade de gerar, de criar alguma coisa. Mas a curva dinâmica tem um meio, e aí reside a consciência.

Como podemos viver no momento presente se não nos entregamos 100% a cada situação? A cada pessoa? Se estamos infelizes a fazer algo, porque não mudamos? Se não estamos inteiros com alguém, para quê estar? Das experiências que tive, entendi que há pessoas minadas pela ideia do apego e, para não estarem apegadas acreditam que têm de estar desapegadas, o que elas inevitavelmente interpretam como alienadas, não 100% lá. Dessa forma, deixa de haver espaço para expressar sentimento, vontade, desejo, para nos rendermos. Tudo se torna superficial, os laços humanos são pouco profundos, e com isso inevitavelmente vem um isolamento e, depois, um fechamento. Fugindo de um envolvimento, fugimos também de ser responsáveis pelo que acontece, deixando tudo na mão do acaso. Não arriscamos nada. Não temos nada a perder. Mas que valor têm as coisas se não podemos perdê-las? Se não temos nada a perder, não temos nada a ganhar. Para quê, então, estarmos aqui? Se nada entra e nada sai de nós?

Para mim, esse não é um estado “iluminado”. Para mim, esse é um estado adormecido. Quando estamos com alguém e estamos mais preocupados em não nos apegarmos do que em estarmos ali, de facto, naquele momento presente, plenos, inteiros, seja por um minuto, uma hora, uma tarde, um dia, um mês, um ano, uma vida com essa pessoa, acabamos ironicamente por fazer o inverso do que pregamos: não vivemos, não estamos, não somos.

Saudade é o que fica de quem não ficou. Quem acha que a distância faz esquecer, esquece que a saudade faz lembrar, ela é sinal de que tudo valeu a pena, ela é a alma a dizer para onde quer voltar, ela define a certeza, porque toda a saudade é a presença da ausência de alguém.

Há que desapegar do desapego, portanto, e simultaneamente entender também que estar acompanhado não evita a solidão, pois ela só existe dentro de nós.

“Quero apenas cinco coisas…

Primeiro é o amor sem fim

A segunda é ver o outono

A terceira é o grave inverno

Em quarto lugar o verão

A quinta coisa são teus olhos

Não quero dormir sem teus olhos.

Não quero ser… sem que me olhes.

Abro mão da primavera para que continues me olhando.”

– Pablo Neruda

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