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São Paulo respira uma vibração muito própria, como uma batida de tambor, uma frequência de rádio que se sincroniza, para bem ou para mal, mas nunca de forma indiferente. Não, São Paulo não deixa ninguém indiferente. Não por ser bonita, mas por ser interessante. Acima de tudo, não é uma cidade de meios termos. Não se “estranha e depois se entranha”, como dizia Fernando Pessoa. Simplesmente, entranha-se. Ou não. Ou se gosta ou se odeia. Ponto.

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Quando o avião está prestes a aterrar e nos deparamos com o imensurável espetáculo de cimento, inevitavelmente nos invade um sentimento de insignificância. Não uma insignificância sobre nós, indivíduos, mas sobre nós enquanto humanidade.

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Logo de seguida, ao caminharmos pelas avenidas e ruas, cruzando olhares, cheiros, cores, texturas e sons, aquela sensação anterior de alienação dissipa-se numa imediata ligação ao próximo, que é um estranho absoluto. Somos todos estranhos em São Paulo. Somos uma gigantesca família de estranhos. As pessoas se olham, se falam, se notam, se aproximam e se afastam. As pessoas veem e são vistas. Somos simultaneamente os voyeurs e os observados. Há sempre alguém nos vendo e nós estamos sempre vendo alguém, quase como um “mise-en-abyme”. E, consequentemente, também ignoramos e somos ignorados.

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Dizem que é uma cidade cinzenta. Não acho. Não por desgostar do cinzento, pelo contrário, o cinzento é a cor do equilíbrio e o equilíbrio é bom e necessário. Mas não há equilíbrio sem desequilíbrio e São Paulo não é equilibrada, é “border-line”. É esse desequilíbrio que atrai, que pulsa. Tudo pode acontecer aqui na metrópole brasileira. São Paulo é rosa-choque. E, “perder o equilíbrio (por amor) faz parte de viver uma vida equilibrada”.

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Saio para caminhar pelos bairros fora, voluntariamente me perdendo na trilha urbana. Atualmente, que fazemos nesses momentos em que o cenário nos é estranho e não sabemos mais onde estamos? Mecanicamente sacamos o iphone ou o android do bolso e encontramos supostamente a salvação, não na bíblia, mas no sagrado Google Maps. Mas quando não tínhamos esses objetos, também vivíamos. Não é saudosismo, é só uma constatação. Sem esses “filhos eletrónicos” estávamos a ganhar no jogo onde muitas vezes hoje em dia perdemos. Ganhávamos em tempo, tranquilidade, paciência e, acima de tudo, presença.

Assim, perdida nas avenidas imensas, saquei o acessório numa tentativa de auxílio. Mas, rapidamente e felizmente entendi duas coisas: a primeira, tentar ler o Google Maps no meu telefone de baixíssima gama era missão impossível de tão pequeno. A segunda, falar com as pessoas na rua aproximava-me não só delas, mas do meu destino, que mais do que um lugar, era eu mesma.

Nós, humanos, somos feitos para interagir uns com os outros, não com máquinas. As vivências tornam-se dessa forma autênticas, e nessa imensidão de pedra paulistana a cidade ganha assim uma qualidade menos dura e mais carne e osso. Dessa forma, permitimo-nos uma aventura quotidiana, sair do trajeto calculado, nos surpreendermos com quem encontramos no caminho, aprender algo novo, expandir um pouco mais as nossas mentes e espíritos, encher mais ar nos pulmões, chegar a casa mais inteiros, mais cheios de vida.

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De vez em quando é preciso sair. Ou de vez em quando é preciso voltar. Porque mesmo aqueles que vivem em lugares mais tranquilos e perto da natureza – frequência que é igualmente necessária – sentem falta de algo. O que é esse algo? São as pessoas. As pessoas que, juntas, produzem essa tal vibração que contagia e alimenta.

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Uma cidade sem pessoas é como um teatro sem atores. Não acontece. Com pessoas, o amor surge, a cidade respira, o sangue corre. E a vida se dá, mas… como dizia o poeta, só “para quem se deu” (também).

16062011_vhils-650x432-600x398Mural de artista português, Vhils, em São Paulo.

vhils-joins-londons-phytology-unveils-lisbon-based-solo-exhibition-5443Vhils:  http://www.alexandrefarto.com

Tema “Give you my Love” de grupo português, Orelha Negra, em parceria com Vhils:  https://www.youtube.com/watch?v=t6FU1Fvn9Nk

 

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